Sobre este tema, certa feita um grupo de amigos conversava com o mestre Haroldo. Haroldo é hoje um turista inveterado que desfruta da experiência de vida e das viagens para apresentar ideias simples e funcionais. A longa vida profissional, como técnico multidisciplinar, praticamente o torna uma autoridade em questões práticas de uma forma geral. E foi num dos seus retornos ao Brasil, como haveria de ser, que, deslumbrado com o Canadá, o papo rolou. Citou com particular curiosidade a quantidade de idosos andando sozinhos nas extensas calçadas das ruas das cidades canadenses.
É compreensível que, num país onde a educação seja prioridade e o Estado esteja presente como promotor do bem-estar-social, que os cuidados com os indivíduos sejam flagrantes. Para tanto, a contrapartida dos indivíduos deve ser o comportamento civilizado, com respeito mútuo entre cidadãos e destes para com o patrimônio público. Em meio à conversa alguém lembrou que Aracaju desenvolve uma campanha denominada ‘Calçada Livre’ de ótimas intenções, porém difícil é os próprios moradores acreditarem que isto tem a ver com eles.
Ficava evidente na conversa de Haroldo que ao voltar à realidade aracajuana ele se deparava com um país cheio de jovens e calçadas impeditivas para esses mesmo jovens andarem. Quando ficarem velhos, aí tal situação piorará. Aquela visão harmoniosa deles, idosos numa cidade plana, de calçadas largas e livres não será possível. Ao contrário, terão de vencer barreiras no passeio público, bem diferente daquela lá do Canadá, onde o nivelamento e alinhamento das calçadas é uma determinação oficial. Tadinhos dos velhinhos aracajuanos, as nossas calçadas são acidentes arquitetônicos oriundos de um fenômeno qualquer, nunca de projeto de engenharia. Anda-se nas calçadas como se tivesse praticando corrida com salto de obstáculos.
No Brasil da cultura patrimonialista, o conceito de passeio público morreu e há na cabeça das pessoas a certeza de que a calçada é a extensão do terreno das residências. O proprietário da casa é quem decide se “sua” calçada terá um metro de altura ou alguns centímetros abaixo da calçada do vizinho. E nem precisa reconhecer necessidade técnica para tais malas-ajambradas construções.
A situação se inicia cômica e termina trágica. Isto vai dos agrupamentos mais humildes, que usam a altura das calçadas como assento à frente das casas, e, balançando os pezinhos, ficam a fofocar a vida alheia, passando pela aquela senhora de ancas largas, que adora plantas e resolveu construir uma floreira bem no meio da calçada; tem o senhor esquisito e taciturno que simplesmente erigiu uma grade no meio do passeio, para impedir que o curioso passe em frente à sua porta e bisbilhotei. A iniciativa construtiva campeã é praticamente uma regra para toda a posuda classe média emergente e dona do carro do ano: construir rampa que vai do nível do asfalto até o piso da sua casa, a um metro e meio de altura; e o portão da sua garagem ainda abre para fora. São calçadas onde os proprietários das casas exibem todo o egocentrismo que couber no espaço. Alguns construtores civis, se pudessem sequer deixariam calçadas, mas somente a pista de rolagem dos carros.
A coleção de desvios prossegue: pisos lisos, ou seja, sem característica antiderrapante, rampas íngremes, enormes desníveis de uma calçada para outra, casas construídas sobre o passeio, árvores cujo tronco é adornado com jardineiras que tomam toda a largura da calçada. Isto, sem contar com o fato de serem as próprias caçadas estreitas a receber outros tipos de ocupações indevidas, como a dos vendedores, automóveis e material de construção...
E como termina isto? Com acidentes. Muitos acidentes não contabilizados. São escorregões, torções de tornozelos, topadas com contusões nos dedos dos pés, quedas com escoriações em joelhos, braços e rosto e até pancada na cabeça. Isto quando é possível andar nas calçadas. Quando o cidadão resolve andar nas ruas, propriamente no asfalto, competindo com os carros, aí a situação de risco é elevada a décima potência.







