domingo, 31 de março de 2013

A História do Verde de Brasília

Quaresmeira

Foi assim, de um modo geral, a história do verde de Brasília: começou com a construção da cidade, na época da própria construção. Houve uma fase inicial, que eu costumo chamar de fase ética, onde tudo foi feito muito às pressas,  muito correndo, como não podia deixar de ser. Isto não é culpa de quem fazia o trabalho na época, eram as circunstâncias do momento. 
Para se ter uma idéia, aquelas árvores da W3 sul foram plantadas numa noite, quase cinco mil árvores numa noite, precisava preencher esses espaços vazios, que estavam sendo criados na construção da cidade e não havia... – preencher com verde obviamente – ... e não havia pesquisa em Brasília nem no país, não havia viveiros, nem produção de mudas adequadas, não havia nada disso. Essa experiência de viajar no meio de uma área verde, como esta de Brasília,  com plantas do cerrado, é uma coisa muito singular e se demandou pesquisa, que só veio depois. Então tudo foi feito correndo, às pressas, e não se ficava pensando muito na qualidade desse trabalho, era fazer e pronto. Para demonstrar e dar condições mínimas de habitabilidade, chegou-se ao grotesco de plantar tiririca, que é uma espécie invasora de erva-daninha, no eixo rodoviário sul. No eixo monumental, na esplanada dos ministérios, foi plantado alpiste para germinar em três ou quatro dias e ficar verde, para poder inaugurar  a cidade. Mas tudo isso é perdoável e compreensível, pois, como eu falei, foram circunstâncias da época. O que importava era dar a Brasília essas condições mínimas de habitabilidade. O projeto do Dr. Lúcio Costa é um projeto extremamente generoso com relação a esses espaços, onde teriam que se plantar essas árvores e, aos poucos, a Novacap foi "criando" experiência nos trabalhos, nesse assunto, e foram "tocando" as condições de infra-estrutura, que deram origem depois ao futuro departamento de parques e jardins. No início da década de setenta houve um episódio aqui muito marcante. Tudo aquilo que foi plantado desta maneira que eu falei, correndo, principalmente espécies exóticas, que não eram aqui dessa região, principalmente no que se confere às árvores; tudo isso que foi plantado, no inicio da década de setenta,  já estavam adultas as árvores, já estavam grandes, mas morreu tudo, morreu tudo. Quem está em Brasília há bastante tempo é testemunha disto que eu  estou falando. Em 1972, 1973, nós chegamos a cortar cinqüenta mil árvores mortas.  Este foi um fato que teve até uma repercussão política muito negativa para Brasília, porque eu me lembro que os parlamentares que ainda apregoavam a volta da capital para o Rio, diziam: como vai se viver numa cidade, numa capital, onde nem as árvores "pegaram"? Foi uma pressão política e psicológica muito grande em cima da equipe, aqui do departamento de parques e jardins.  Aí então nós partimos para a pesquisa, uma pesquisa muito séria, muito profunda, de como continuar este trabalho, mas de uma forma adequada, de  uma forma que o que se plantasse fosse permanente, durável. 
Nós marcamos uma área de cerca de 400 quilômetros de raio e começamos a acampar no cerrado, para marcar matrizes do cerrado, estudar como era a germinação, como era a condição de vida, porque não se sabia absolutamente nada. As árvores eram trazidas de fora, de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia. Então vieram árvores de tudo quanto é lugar. Aí, nós começamos a produzir essas espécies nativas aqui da região. A partir de 1973, 1974, nós começamos a plantar, já, essas espécies nativas. 
Hoje a arborização de Brasília é uma arborização que dá à cidade uma fitofisionomia única, singular, própria de Brasília. Você chega em Manaus, por exemplo, você encontra flamboyant, árvores que são bonitas, mas não são nem da flora brasileira, aí você chega em Porto Alegre, que é outro extremo do País, você encontra flamboyant. Isto não é uma crítica a essas duas cidades, não, estou mostrando como é o panorama nacional em termos de arborização. E aqui em Brasília não, aqui você vai ter as árvores próprias de Brasília. Então você vai encontrar em Brasília: ipê amarelo, roxo, branco, quaresmeira, copaíba, aroeira, essas espécies que só vão existir aqui e que podem ter vida plena, pois são árvores centenárias, de pouquíssimo trabalho de manutenção, adaptadas ao solo e ao clima aqui da região. 
Da mesma forma que aconteceu com as árvores, aconteceu com a grama. No começo de Brasília foi plantada uma espécie não-nativa, depois passaram a plantar grama batatais, que é nativa aqui da região. Lá pelo final da década de sessenta, passaram a plantar também, em grandes áreas, grama de semente, semente de grama importada, grama americana, principalmente as conhecidas como bermudas e no início foi um sucesso danado, porque isto barateava muito os custos do plantio e formavam grandes áreas plantadas muito rapidamente, mas veio de novo o velho problema; essa grama não resistiu às condições climáticas de Brasília, nem do solo nem do clima e ela desapareceu. Para se ter uma idéia, o canteiro Leste do eixo rodoviário sul, que  é aquele do lado das quadras 200, foi plantado com essa grama bermudas, o canteiro Oeste, que é onde está sendo implantado o metrô, foi plantado com a batatais. Hoje, vinte anos, trinta anos depois, você não sabe qual o lado que foi plantado batatais e qual foi plantado bermudas. A bermudas desapareceu e a batatais simplesmente tomou conta de toda a área, sem precisar ninguém plantar. Foi uma invasão natural, porque uma, é espécie adaptada, nativa da região e a outra é uma espécie exótica, que não agüentou a secura.  
Em muitas outras áreas da cidade aconteceu isso, o eixo rodoviário norte foi  todo plantado com as bermudas e hoje você chega lá e só tem batatais e ninguém plantou batatais lá, ninguém plantou, simplesmente ela foi colonizando  a área, dominando aquela grama que não se adaptou. Essas são as grandes experiências no campo das árvores e no campo das gramíneas. Depois a Novacap desenvolveu pesquisas com outras espécies de grama batatais, que tem semente fértil, porque essas batatais, nativas aqui da região, que é plantada em placas, quando plantada em mudas não tem semente fértil, então ela não germina, é estéril. Então nós fizemos pesquisas com outra variedade, da espécie que tem semente fértil. O plantio foi feito em grandes áreas, plantio mecanizado e aí foi sucesso. Aquela área que compreende o Memorial JK e a Rodoferroviária, foi plantada com esta grama. Se você fosse plantar em placas, teria um gasto astronômico e se demoraria uns seis meses para plantar. Nós fizemos baratíssimo e, em quinze dias, já estava tudo plantado. São métodos de plantio e pesquisas desenvolvidos pela Novacap. Bem, acho que já falei, de um modo bem geral, das árvores e das gramíneas e agora mais recentemente houve uma iniciativa de se fazer os canteiros ornamentais, porque Brasília já tinha uma área gramada imensa, uma área arborizada fantástica. Para se ter uma idéia, nós devemos ter em Brasília cerca  de 4 milhões de árvores plantadas. A área gramada, cuidada pelo governo e por particulares, é da ordem de 50 milhões de metros quadrados. Isso dá uma área verde superior a 120 metros quadrados por habitante, quando os padrões internacionais estabelecem que o "ótimo", para se viver numa cidade, é que ela tenha 25 metros quadrados por habitante, de área verde. Em Brasília nós temos mais de quatro vezes o "ótimo" e estamos trabalhando firmemente para que nunca esta relação caia. Porque o verde não desempenha só um papel ornamental, paisagístico. O verde não é só complementação da arquitetura. O verde é que dita as condições e a qualidade de vida; ele atenua a baixa umidade relativa que nós enfrentamos na seca; atenua essa luminosidade excessiva; ele evita a erosão do solo e aquele lamaçal que era característico da época de chuva aqui em Brasília. Ele protege as redes de águas pluviais, esgotos, quero dizer, ele atua condicionando a qualidade de vida em Brasília, ele não é um complemento da arquitetura daqui, é preciso que se entenda que ele tem importância própria. Então, uma cidade para ficar com uma boa qualidade de vida, nos padrões internacionais, deverá ter 25  metros quadrados de área verde por habitante e nós temos mais de quatro  vezes o "ótimo". Isso é uma coisa fantástica, um patrimônio de Brasília, uma coisa que deve ser preservada pelos seus habitantes. Mas, como eu já falei, Brasília já tinha essa arborização fantástica, essa área verde enorme, mas faltava a beleza, a complementação paisagística, que veio por meio desses canteiros ornamentais.  Isso foi implantado agora, já na década de 90, a partir de 1991. Hoje nós temos cerca de mil canteiros ornamentais pelo Plano Piloto, Lago Sul e Lago Norte. É uma coisa que teve uma receptividade da população, inesperada. A população adotou essas flores, adotou esses canteiros. Você vê que a população depreda orelhões, luminárias e ninguém toca nos canteiros, ninguém toca. O índice de depredação desses canteiros é zero. Outra coisa muito importante também é que isso formou escola, hoje nós  demos cerca de trezentos estágios, aqui na Novacap, para técnicos de outros estados e do exterior, que querem copiar, que querem absorver a tecnologia que nós desenvolvemos aqui, na produção dessas flores. As flores não são nativas, elas são cosmopolitas, elas são flores que existem no mundo inteiro. O que existe é um estudo muito sério de adaptação delas para Brasília. Tem umas que são próprias da época de chuva, outras que são próprias da época de seca, este foi o grande estudo que nós fizemos. Agora isso é uma coisa que está se difundindo no país inteiro, graças a Brasília. Por trás deste programa das flores, há também um grande programa social.  É que as mudas dessas flores são formadas por deficientes físicos, auditivos e visuais. Nós temos cegos, paraplégicos, tetraplégicos e surdos-mudos que trabalham no cultivo dessas flores. E meninos de rua. Nós temos cerca de 70 deficientes e 100 meninos de rua que trabalham na produção dessas mudas de flores.
Aqui eles começam aos 14 anos e saem aos 18 anos, já profissionalizados, com condições de enfrentar o mercado de trabalho. Eles têm acompanhamento pedagógico, acompanhamento psicológico, tem toda assistência para eles e para suas famílias. Um acompanhamento do menor e de sua família muda o comportamento dele, na sociedade e na família. Eles têm obrigação de estudar. Quem sair da escola perde o emprego; o rendimento da escola também é acompanhado. Não é para exigir só o trabalho, mas para formar o cidadão. É um trabalho fantástico que também está sendo exportado para outros lugares do País. Agora no início de abril, o ministro Pelé ficou sabendo deste trabalho e como ele  é muito voltado para a criança, ele nos fez uma visita e passou uma tarde conosco. Saiu muito entusiasmado com o trabalho e ele próprio disse que vai ser um agente de difusão deste trabalho social. As crianças ganham cerca de um salário mínimo por quatro horas de trabalho, porque as outras quatro eles estão na escola. Os deficientes ganham dois salários mínimos por oito horas de trabalho. Este trabalho dignifica a Novacap. Nós não estamos pensando que vamos resolver o problema social deste País, nem de Brasília, o que nós queremos mostrar é que se a iniciativa privada der emprego para menores e deficientes, eles serão mais produtivos. Eles são melhores que todos os outros funcionários, ditos normais, mesmo aqueles que nunca enxergaram. Eles desenvolvem uma habilidade que supera essa deficiência e são pessoas perfeitamente produtivas, que trabalham sem nenhum problema, perfeitamente integrados aos outros funcionários e sem nenhuma discriminação. 

Narrativa de Ozanan Coelho - ex-diretor do DPJ

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Carro dá origem a bicicletas



Que tal pedalar numa bike produzida com restos de carros abandonados em ferro-velhos? Não duvide, pois essa "magrela" de fabricação sustentável existe, sim, e atende pelo nome de Bicycled (Bicycle+Recycled), segundo informou o blog Pra Quem Pedala.

Abandono de carros é uma realidade nas principais cidades.

O quadro da Bicycled é feito de metal reciclado de lataria de carros. O selim é proveniente do couro dos assentos dos veículos, enquanto que o pisca traseiro reaproveita as luzes de seta. A correia dentada do motor do carro foi utilizada como corrente da bicicleta e as maçanetas das portas viraram blocagens de quick-release de canote de selim.
"É uma moto artesanal criada especialmente por proprietários de lojas de bicicletas. Cada bicicleta é feita de peças de carros reais, não haverá duas de um mesmo tipo", explica a empresa Lola Madrid, fabricante da novidade. "Essa é a chave para um produto projetado para utilizar resíduos de carros, tanto quanto ele pode", acrescenta a companhia.
O abandono de automóveis é um problema que assola as principais cidades brasileiras. Em março de 2012, só em São Paulo, eram 1.500 carros abandonados, segundo estimativa da prefeitura. Em 2011, 1.302 foram recolhidos na maior capital do país. Ao todo, 126 carcaças foram retiradas em 2011 de Pinheiros, Cidade Ademar e Freguesia do Ó, bairros onde as ocorrências são frequentes. O valor da multa cobrada para retirar o automóvel dos pátios da prefeitura, depois de ser recolhido pelos fiscais, é de R$ 12.000,00.
É possível encomendar uma Bicycled através do site.

Assista a um vídeo sobre a Bicycled:


Fonte: Mobilize Brasil

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Prédios Públicos: Risco Maior


A tragédia registrada há uma semana em Santa Maria, trouxe a tona um problema antigo: a fiscalização e o cumprimento de normas de segurança no Brasil é falho ou inexistente.
A má gestão no Brasil não se limita somente as áreas de saúde, educação e transporte, mas em fiscalização é facilmente constatado que não é levada a sério. Em auditoria feita recentemente pelo Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), foi registrado que vários prédios públicos estão em condições precárias colocando em risco seus usuários no dia-a-dia.

Segundo o documento, a deterioração e o descaso fere a Lei de Responsabilidade Fiscal. Rachaduras, fissuras nas estruturas, infiltrações, fiação exposta, luminárias ausentes, ausência de escadas de emergência  e elevadores inoperantes, pisos danificados, dispositivos de combate de incêndio precários, alvenaria desgastada, pintura e esquadrias danificadas são vistas em vários prédios no DF.
Por quase três meses, os auditores do Tribunal de Contas do Distrito Federal fizeram vistorias em pontes, viadutos, prédios e monumentos públicos e encontraram uma série de problemas e irregularidades de conservação.

Uma visão aérea mostra que o acesso interno é difícil.

Não poderíamos deixar de destacar que dentre os prédios públicos, existem os que se destacam e abrigam órgãos importantes na estrutura do Governo Distrital e Federal, como por exemplo Anexo do Buriti, INFRAERO e IBGE, no Eixo Monumental, Setor Comercial Sul, W-3 Sul e Setor de Diversões Sul, respectivamente.

Visão externa norte do CONIC.
No caso específico do IBGE, que retrata o Brasil com informações necessárias ao conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania, possivelmente é a situação mais crítica, nos dois endereços, sendo um no Ed. Venâncio II (Sede) e outro, na Av. W-3 Sul – Quadra 509 (Agência Brasília). O primeiro, ocupa o 2º. andar do Ed. Venâncio II, no antigo e ultrapassado Centro Comercial CONIC, onde é fácil constatar inúmeras situações de irregularidades, a começar por elevadores obsoletos e acanhados, escadas em forma de espiral que comportam apenas uma pessoa por vez. 

Visão interna: obra inacabada
A inexistência de saídas ou escadas de emergência põe em xeque a segurança de seus usuários diariamente. O subsolo do prédio é outro local perigoso pois comporta uma série de lojinhas com produtos de fácil combustão. A falta de higiene e limpeza está sempre presente. O acúmulo de água da chuva em seu piso térreo é de fácil constatação. 

Visão interna: má conservação
E o mais grave, o acesso do Corpo de Bombeiros é dificultado pela formato de construção. Não poderíamos deixar de citar a frequência constante de usuários de drogas e a prostituição em suas proximidades. 

Subsolo: retrato do descaso
Quanto ao prédio da 509 Sul, trata-se de uma construção de 1961, já modificada ao longo dos anos, onde os problemas aglomeram-se. 

Visão externa 509 Sul  reflete  o estado interno.
 Telhado com problemas de goteiras, infiltrações. Banheiros incompatíveis com a quantidade de servidores e com mal funcionamento. Ausência de saídas de emergência. Recentemente a Defesa Civil constatou problemas de infiltrações no subsolo do prédio, pondo em risco a estrutura do mesmo e ameaçando a segurança dois servidores da instituição.
Segundo o relatório produzido, a atividade de manutenção nos órgãos federais, apesar do grande esforço dos servidores envolvidos, é realizada de maneira improvisada, com minguados recursos, casual e não garante a integridade das edificações públicas. A conclusão é de que também não existe rotina de inspeção e avaliação da situação dos bens para fins de planejamento. São poucas as unidades questionadas que demonstraram dispor de plano de manutenção de bens públicos de forma a priorizar a manutenção rotineira e planejada, para minimizar a ocorrência de serviços inesperados, o que encarece a realização desses e geralmente causa maiores transtornos aos servidores, que a cada evento mostra-se assustada e apreensiva.
Por fim, a auditoria do TCDF concluiu que os gestores ferem o artigo 45 da Lei de Responsabilidade Fiscal, que “procura combater a nefasta cultura dos governantes brasileiros de abandonar os projetos iniciados em gestões anteriores, bem como dar pouca atenção à manutenção dos bens públicos existentes, privilegiando o desenvolvimento de novos projetos ou ignorando as tentativas dos servidores em buscar segurança e qualidade no trabalho”.

Fonte: Internet e TCDF

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Calçada não é banheiro



Há alguns meses atrás um jornal paulista noticiou o desespero de uma moradora da Zona Norte, que espalha vapimenta na calçada para evitar que os cachorros façam suas necessidades no local em frente a sua casa.
Pena que ela não more no Plano Piloto, em Brasília. Os jardins desse paraíso da classe média são esgotos a céu aberto dos proprietários de cães, que os utilizam como banheiro de seus pets. O espaço é democrático. Animais de qualquer tamanho, cor ou raça fazem a festa de manhã, de tarde, de noite e, alguns mais folgados e frouxos, até de madrugada. Só os vira-latas não tem vez nesse seleto grupo de donos exigentes.
Isso faz com que os moradores evitem sair a pé, porque fatalmente pisarão em dejetos de mais de um quadrúpede. Para ir ao mercado ou à academia da esquina, utilizam carros. As crianças são proibidas de brincar, pois o bicho-papão é bem real, em forma de bactérias e vermes.
Em um dia ensolarado, resolvi enfrentar a pé os 300 metros que me levam à academia. Durante a perigosa travessia, desviando de objetos que me encaravam ameaçadores, deparei-me com um homem e seu cão. A cena que vi foi deplorável e desafia o orgulho da espécie humana. Mas antes de continuar, permita-me o leitor fazer uma pequena digressão sobre o bípede. Ele é o que se chama "senhor distinto", cabelos grisalhos e pele clara. Não digo branco, porque "aqui somos mestiços, mulatos, cafuzos, pardos, mamelucos, sararás, crilouros, guaranisseis e judárabes", portanto, "inclassificáveis", como ensina a música popular (Ney Matogrosso).
Voltemos à cena. O cachorro, porte de pit bull e cara de ursinho enrugado (não sei qual raça), curvou-se solenemente e começou a soltar toletes e toletes. Nenhum humano produziria tanta massa fecal! Ao terminar, o bicho olhou para seu dono, esperando que ele pegasse um saquinho e limpasse a sujeira. Em vez disso, o sujeito puxou a coleira do cão para que fossem embora. Indignado, o animal empacou e começou a jogar terra e grama sobre a bosta.Quanto mais o dono puxava, mais furioso ele cavava a terra com suas patas traseiras. Até que, enforcado, teve que se render à persuasão da coleira. Ao sair, o pit/ursinho lançou-me um olhar como se pedisse desculpas pela cachorrada de seu dono. Encolhi os ombros, como que respondendo "num liga não". 

Não me surpreenderia se o indivíduo, logo à frente, abaixasse as calças e nos presenteasse com seus restos mortais do Mac’Donalds.
Esse negócio de deixar nossa sujeira para os outros é uma tradição que recebemos dos colonizadores europeus (tá explicado porque divaguei acima sobre homens brancos). Estes obrigavam os escravos a carregar cestas cheias de seus dejetos – urina, fezes, catarro, sangue –, levando-os para longe dos nobres, que, paradoxalmente, julgavam-se limpos demais, com seus perfumes franceses. Os senhores ainda tiveram a cara-de-pau de espalhar que "negro, quando não suja na entrada..." Talvez em razão disso, moradores de Higienópolis, bairro chique de São Paulo, insistem em deixar esse lixo aos trabalhadores da limpeza, como Renato Cordeiro, 23 anos, que enche um saco de 40 quilos de fezes por dia, como informou a reportagem da Folha.
O esforço para mudar esse quadro não tem surtido efeito. Em Brasília, a Lei 2.095, de 1998, que prevê multa aos donos sujões, é solenemente ignorada por falta de fiscalização. Em São Paulo, a Lei 13.131, de 2001, estabelece uma ridícula pena de R$ 10.
É preciso entender que o ser humano não é igual a muitos outros animais. Estes seguem o instinto. Aquele, apesar de também saber que cocô suja e causa doenças, precisa de medidas punitivas educativas. As pessoas só param nas faixas de pedestres, por exemplo, quando sentem no bolso. Outras, evitam dirigir embriagadas por medo da recente Lei Seca. É assim em qualquer lugar do mundo. Alguns países europeus só atingiram elevado senso de cidadania pela certeza da punição. Por isso, fica um apelo aos agentes públicos: cumpram as leis, fiscalizem, eduquem!
Fonte: Jornal de Brasília