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| Quaresmeira |
Foi assim, de um modo geral, a história do verde de Brasília:
começou com a construção da cidade, na época da própria construção. Houve uma
fase inicial, que eu costumo chamar de fase ética, onde tudo foi feito muito às
pressas, muito correndo, como não podia deixar de ser.
Isto não é culpa de quem fazia o trabalho na época, eram as circunstâncias do
momento.
Para se ter uma idéia, aquelas árvores da W3 sul foram plantadas
numa noite, quase cinco mil árvores numa noite, precisava preencher esses
espaços vazios, que estavam sendo criados na construção da cidade e não
havia... – preencher com verde obviamente – ... e não havia pesquisa em
Brasília nem no país, não havia viveiros, nem produção de mudas adequadas, não
havia nada disso. Essa experiência de viajar no meio de uma área
verde, como esta de Brasília, com plantas do cerrado, é uma coisa muito
singular e se demandou pesquisa, que só veio depois. Então tudo foi feito
correndo, às pressas, e não se ficava pensando muito na qualidade desse
trabalho, era fazer e pronto. Para demonstrar e dar condições mínimas de habitabilidade,
chegou-se ao grotesco de plantar tiririca, que é uma espécie invasora de
erva-daninha, no eixo rodoviário sul. No eixo monumental, na esplanada dos ministérios,
foi plantado alpiste para germinar em três ou quatro dias e ficar verde, para
poder inaugurar a cidade. Mas tudo isso é perdoável e compreensível, pois, como eu falei,
foram circunstâncias da época. O que importava era dar a Brasília essas condições
mínimas de habitabilidade. O projeto do Dr. Lúcio Costa é um projeto extremamente generoso
com relação a esses espaços, onde teriam que se plantar essas árvores e, aos
poucos, a Novacap foi "criando" experiência nos trabalhos, nesse
assunto, e foram "tocando" as condições de infra-estrutura, que deram
origem depois ao futuro departamento de parques e jardins. No início da década de setenta houve um episódio aqui muito
marcante. Tudo aquilo que foi plantado desta maneira que eu falei, correndo,
principalmente espécies exóticas, que não eram aqui dessa região,
principalmente no que se confere às árvores; tudo isso que foi plantado, no
inicio da década de setenta, já estavam adultas as árvores, já estavam
grandes, mas morreu tudo, morreu tudo. Quem está em Brasília há bastante tempo
é testemunha disto que eu estou falando. Em 1972, 1973, nós chegamos a cortar cinqüenta mil árvores
mortas. Este foi um fato que teve até uma repercussão
política muito negativa para Brasília, porque eu me lembro que os parlamentares
que ainda apregoavam a volta da capital para o Rio, diziam: como vai se viver
numa cidade, numa capital, onde nem as árvores "pegaram"? Foi uma
pressão política e psicológica muito grande em cima da equipe, aqui do
departamento de parques e jardins. Aí então nós partimos para a pesquisa, uma
pesquisa muito séria, muito profunda, de como continuar este trabalho, mas de
uma forma adequada, de uma forma que o que se plantasse fosse
permanente, durável.
Nós marcamos uma área de cerca de 400 quilômetros de raio e
começamos a acampar no cerrado, para marcar matrizes do cerrado, estudar como
era a germinação, como era a condição de vida, porque não se sabia
absolutamente nada. As árvores eram trazidas de fora, de Belo Horizonte, Rio de
Janeiro, São Paulo, Goiânia. Então vieram árvores de tudo quanto é lugar. Aí,
nós começamos a produzir essas espécies nativas aqui da região. A partir de
1973, 1974, nós começamos a plantar, já, essas espécies nativas.
Hoje a arborização de Brasília é uma arborização que dá à cidade
uma fitofisionomia única, singular, própria de Brasília. Você chega em Manaus,
por exemplo, você encontra flamboyant, árvores que são bonitas, mas não são nem
da flora brasileira, aí você chega em Porto Alegre, que é outro extremo do
País, você encontra flamboyant. Isto não é uma crítica a essas duas cidades,
não, estou mostrando como é o panorama nacional em termos de arborização. E
aqui em Brasília não, aqui você vai ter as árvores próprias de Brasília. Então
você vai encontrar em Brasília: ipê amarelo, roxo, branco, quaresmeira,
copaíba, aroeira, essas espécies que só vão existir aqui e que podem ter vida
plena, pois são árvores centenárias, de pouquíssimo trabalho de manutenção,
adaptadas ao solo e ao clima aqui da região.
Da mesma forma que aconteceu com as árvores, aconteceu com a
grama. No começo de Brasília foi plantada uma espécie não-nativa, depois
passaram a plantar grama batatais, que é nativa aqui da região. Lá pelo final da década de sessenta, passaram a plantar também, em
grandes áreas, grama de semente, semente de grama importada, grama americana,
principalmente as conhecidas como bermudas e no início foi um sucesso danado,
porque isto barateava muito os custos do plantio e formavam grandes áreas
plantadas muito rapidamente, mas veio de novo o velho problema; essa grama não
resistiu às condições climáticas de Brasília, nem do solo nem do clima e ela
desapareceu. Para se ter uma idéia, o canteiro Leste do eixo rodoviário sul,
que é aquele do lado das quadras 200, foi plantado
com essa grama bermudas, o canteiro Oeste, que é onde está sendo implantado o
metrô, foi plantado com a batatais. Hoje, vinte anos, trinta anos depois, você
não sabe qual o lado que foi plantado batatais e qual foi plantado bermudas. A
bermudas desapareceu e a batatais simplesmente tomou conta de toda a área, sem
precisar ninguém plantar. Foi uma invasão natural, porque uma, é espécie
adaptada, nativa da região e a outra é uma espécie exótica, que não agüentou a
secura.
Em muitas outras áreas da cidade aconteceu isso,
o eixo rodoviário norte foi todo plantado com as bermudas e hoje você chega
lá e só tem batatais e ninguém plantou batatais lá, ninguém plantou,
simplesmente ela foi colonizando a área, dominando aquela grama que não se
adaptou. Essas são as grandes experiências no campo das árvores e no campo
das gramíneas. Depois a Novacap desenvolveu pesquisas com outras espécies de
grama batatais, que tem semente fértil, porque essas batatais, nativas aqui da
região, que é plantada em placas, quando plantada em mudas não tem semente
fértil, então ela não germina, é estéril. Então nós fizemos pesquisas com outra
variedade, da espécie que tem semente fértil. O plantio foi feito em grandes
áreas, plantio mecanizado e aí foi sucesso. Aquela área que compreende o
Memorial JK e a Rodoferroviária, foi plantada com esta grama. Se você fosse
plantar em placas, teria um gasto astronômico e se demoraria uns seis meses
para plantar. Nós fizemos baratíssimo e, em quinze dias, já estava tudo
plantado. São métodos de plantio e pesquisas desenvolvidos pela Novacap. Bem, acho que já falei, de um modo bem geral, das árvores e das
gramíneas e agora mais recentemente houve uma iniciativa de se fazer os
canteiros ornamentais, porque Brasília já tinha uma área gramada imensa, uma
área arborizada fantástica. Para se ter uma idéia, nós devemos ter em Brasília
cerca de 4 milhões de árvores plantadas. A área
gramada, cuidada pelo governo e por particulares, é da ordem de 50 milhões de
metros quadrados. Isso dá uma área verde superior a 120 metros quadrados por
habitante, quando os padrões internacionais estabelecem que o
"ótimo", para se viver numa cidade, é que ela tenha 25 metros
quadrados por habitante, de área verde. Em Brasília nós temos mais de quatro
vezes o "ótimo" e estamos trabalhando firmemente para que nunca esta
relação caia. Porque o verde não desempenha só um papel ornamental,
paisagístico. O verde não é só complementação da arquitetura. O verde é que
dita as condições e a qualidade de vida; ele atenua a baixa umidade relativa
que nós enfrentamos na seca; atenua essa luminosidade excessiva; ele evita a
erosão do solo e aquele lamaçal que era característico da época de chuva aqui
em Brasília. Ele protege as redes de águas pluviais, esgotos, quero dizer, ele
atua condicionando a qualidade de vida em Brasília, ele não é um complemento da
arquitetura daqui, é preciso que se entenda que ele tem importância própria.
Então, uma cidade para ficar com uma boa qualidade de vida, nos padrões
internacionais, deverá ter 25 metros quadrados de área verde por habitante e
nós temos mais de quatro vezes o "ótimo". Isso é uma coisa fantástica, um patrimônio de Brasília, uma coisa
que deve ser preservada pelos seus habitantes. Mas, como eu já falei, Brasília
já tinha essa arborização fantástica, essa área verde enorme, mas faltava a
beleza, a complementação paisagística, que veio por meio desses canteiros
ornamentais. Isso foi implantado agora, já na década de 90, a
partir de 1991. Hoje nós temos cerca de mil canteiros ornamentais pelo Plano
Piloto, Lago Sul e Lago Norte. É uma coisa que teve uma receptividade da
população, inesperada. A população adotou essas flores, adotou esses canteiros.
Você vê que a população depreda orelhões, luminárias e ninguém toca nos
canteiros, ninguém toca. O índice de depredação desses canteiros é zero. Outra coisa muito importante também é que isso formou escola, hoje
nós demos cerca de trezentos estágios, aqui na
Novacap, para técnicos de outros estados e do exterior, que querem copiar, que
querem absorver a tecnologia que nós desenvolvemos aqui, na produção dessas
flores. As flores não são nativas, elas são cosmopolitas, elas são flores
que existem no mundo inteiro. O que existe é um estudo muito sério de adaptação
delas para Brasília. Tem umas que são próprias da época de chuva, outras que
são próprias da época de seca, este foi o grande estudo que nós fizemos. Agora
isso é uma coisa que está se difundindo no país inteiro, graças a
Brasília. Por trás deste programa das flores, há também um grande programa
social. É que as mudas dessas flores são formadas por
deficientes físicos, auditivos e visuais. Nós temos cegos, paraplégicos,
tetraplégicos e surdos-mudos que trabalham no cultivo dessas flores. E meninos
de rua. Nós temos cerca de 70 deficientes e 100 meninos de rua que trabalham na
produção dessas mudas de flores.
Aqui eles começam aos 14 anos e saem aos 18 anos, já
profissionalizados, com condições de enfrentar o mercado de trabalho. Eles têm
acompanhamento pedagógico, acompanhamento psicológico, tem toda assistência
para eles e para suas famílias. Um acompanhamento do menor e de sua família
muda o comportamento dele, na sociedade e na família. Eles têm obrigação de
estudar. Quem sair da escola perde o emprego; o rendimento da escola também é
acompanhado. Não é para exigir só o trabalho, mas para formar o cidadão. É um
trabalho fantástico que também está sendo exportado para outros lugares do
País. Agora no início de abril, o ministro Pelé ficou sabendo deste
trabalho e como ele é muito voltado para a criança, ele nos fez uma
visita e passou uma tarde conosco. Saiu muito entusiasmado com o trabalho e ele
próprio disse que vai ser um agente de difusão deste trabalho
social. As crianças ganham cerca de um salário mínimo por quatro horas de
trabalho, porque as outras quatro eles estão na escola. Os deficientes ganham
dois salários mínimos por oito horas de trabalho. Este trabalho dignifica a
Novacap. Nós não estamos pensando que vamos resolver o problema social deste
País, nem de Brasília, o que nós queremos mostrar é que se a iniciativa privada
der emprego para menores e deficientes, eles serão mais produtivos. Eles são
melhores que todos os outros funcionários, ditos normais, mesmo aqueles que nunca enxergaram. Eles desenvolvem uma
habilidade que supera essa deficiência e são pessoas perfeitamente produtivas,
que trabalham sem nenhum problema, perfeitamente integrados aos outros
funcionários e sem nenhuma discriminação.
Narrativa de Ozanan Coelho - ex-diretor do DPJ








