sábado, 16 de fevereiro de 2008

"Ira no Trânsito" (II)

Propensão à ira de trânsito

Dirigir um carro é estressante, além de inerentemente perigoso porque, mesmo que você seja o motorista mais seguro do mundo, existem muitas variáveis que você não consegue prever, como clima, acidentes de trânsito e obras nas ruas. E com relação a todas as outras pessoas nas ruas? Algumas não são apenas maus motoristas sem condições de dirigir, mas também se engajam num comportamento de risco - alguns até agem especificamente para irritar o outro motorista ou para impedir que ele chegue onde precisa.

Road Rage Shooting
David McNew/Getty Images
Perfurações de bala em um carro envolvido em um incidente de ira de trânsito em Los Angeles

Essa é a evolução de pensamento que alguém poderá ter antes de passar para a ira de trânsito de fato, levando um motorista a tomar decisões irracionais muito rapidamente. De repente, você poderá pensar: eles precisam saber que o que estão fazendo é perigoso e idiota. De fato, você pode chegar a achar que deve dizer-lhes isso.

Não se pode negar que dirigir pode ser uma experiência arriscada e emocionante. Para muitos de nós, nossos carros são a extensão de nossa personalidade e podem ser o bem mais valioso que possuímos. Quando dirigimos, temos consciência de que existe um potencial para ferimentos e danos materiais. Dirigir pode ser a expressão de liberdade para alguns, mas também é uma atividade que tende a aumentar nossos níveis de estresse, mesmo que não tenhamos consciência disso no momento.

Dirigir é também uma atividade comunitária. Você pode pensar nisso em termos de sua própria experiência pessoal. Mas, uma vez que você entra no trânsito, você se junta a uma comunidade de outros motoristas, todos com seus objetivos, medos e habilidades ao volante. Os psicólogos Leon James e Diane Nahl dizem que um dos fatores da ira de trânsito é nossa tendência de nos concentrarmos em nós mesmos, descartando o aspecto comunitário do ato de dirigir. É muito fácil perceber as ações do outro motorista em termos de como isso nos afeta, o que, por sua vez, torna fácil a transição para a raiva [fonte: James, Nahl].

O neurologista Paul MacLean propõe que a mente humana é uma combinação de três cérebros, um dos quais é conhecido como cérebro de réptil e é similar ao cérebro encontrado em répteis. Essa parte da mente humana, que consiste do tronco encefálico e do cerebelo, é responsável por nosso senso de sobrevivência e pela reação de agressão ou fuga que temos com relação ao medo e ao estresse. Os incidentes relativos à ira de trânsito derivam do estímulo da mente do réptil - o motorista que passa por essa ira se sente ameaçado e responde agressivamente para assegurar sua sobrevivência. MacLean afirma que o cérebro do réptil é inflexível, compulsivo, ritualista e incapaz de aprender a partir de experiências anteriores [fonte: Kheper].

Como um perito do Congresso em psicologia do trânsito, o Dr. James, conhecido como "Dr. Dirigir", acredita que a causa principal da ira de trânsito não são os congestionamentos ou mais motoristas nas ruas, e sim como nossa cultura visualiza a direção agressiva [fonte: James, Nahl]. Em nossa cultura, as crianças aprendem que as regras normais em relação ao comportamento e civilidade não se aplicam quando dirigimos um carro. Elas podem ver seus pais envolvidos em comportamentos de disputa ao volante, mudando de faixa continuamente ou dirigindo em altas velocidades sempre com pressa chegar ao destino. Alguns filmes populares e programas de televisão retratam a direção agressiva como uma atividade positiva ou pelo menos emocionante.

Para complicar as coisas, por vários anos psicólogos mais conhecidos sugeriam que o melhor meio para aliviar a raiva era descarregar sua frustração, essencialmente cedendo a ela e alimentando as suas emoções negativas. Estudos psicológicos mostram, no entanto, que a descarga de frustrações não ajuda a aliviar a raiva. Em uma situação de ira de trânsito, a descarga de frustrações pode levar um incidente a se tornar uma violenta briga. Os americanos têm também a tendência de ver como covarde uma pessoa que se afasta de uma briga, criando um tipo de pressão sobre o motorista, a ponto de ele não dar o braço a torcer mesmo que ninguém o esteja julgando.

Com isso em mente, não é surpresa que brigas violentas aconteçam algumas vezes. A maioria das pessoas está predisposta a apresentar um comportamento irracional quando dirige - o Dr. James vai ainda mais além e diz que a maior parte das pessoas fica emocionalmente incapacitada quando dirige [fonte: James]. O que deve ser feito, dizem os psicólogos, é estar ciente de seu estado emocional e fazer as escolhas corretas, mesmo quando estiver tentado a agir só com a emoção.

Fonte: HowStuffWorks

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Campanha Nacional

Tião Viana quer campanha nacional contra mortes no trânsito

Indignado com um atropelamento - cujas imagens foram mostradas na televisão - o senador Tião Viana (PT-AC) sugeriu nesta quarta-feira (13) que o governo faça uma campanha de levante nacional contra motoristas embriagados. O senador assinalou que os motoristas embriagados foram responsáveis por 6.800 mortes ocorridas em acidentes de trânsito no ano passado e que é preciso responsabilizá-los.

- O país deveria dizer que não aceita mais que um motorista embriagado continue tirando vidas. Está faltando uma campanha de levante nacional. Como pai, meu maior medo é que meus filhos sejam vítimas desse tipo de acidente - afirmou.

Tião Viana parabenizou os meios de comunicação pelos constantes alertas e matérias jornalísticas sobre o tema e sugeriu que acompanhem a vida dos bebedores de bar, que depois de se embriagarem saem dirigindo seus automóveis. Ele ainda lembrou que apenas em 2004 os acidentes de trânsito foram responsáveis por 35.084 mortes, enquanto a guerra no Iraque provocou 5 mil mortes.

O senador Romeu Tuma (PR-SP) disse, em aparte, que na Dinamarca existe um serviço de plantão de motoristas para transportar quem vai beber, pois lá é considerado crime grave dirigir embriagado. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) lembrou que, quando governou o Distrito Federal, conseguiu implantar a faixa para pedestres e o fechamento de bares a partir de determinada hora. A senadora Fátima Cleide (PR-RO) parabenizou o Ministério da Justiça pela edição da medida provisória que proíbe venda de bebida alcoólica às margens das rodovias e manifestou preocupação pelos comerciantes que se situam em trechos urbanos das rodovias.

Fonte: Agência Senado


domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quando o pedestre terá direitos iguais aos demais usuários da via pública?

A primeira resposta que vem à mente, decorre de visão “familiarista” da sociedade: em que há chefe com poder não só para resolver conflitos, mas também para atribuir direitos e obrigações aos diferentes grupos sociais. Em nosso País, com população de baixa escolaridade e tradições que revelam fortes traços colonialistas e escravagistas, o poder do mais forte, ainda é a lei. Mesmo nos centros urbanos mais desenvolvidos e com expressiva população de classe média, constituída de cidadãos com escolaridade média e superior, o seu comportamento no trânsito, como motorista, revela que freqüentemente se utiliza da lei do mais forte para resolver conflitos ou conseguir vantagens. As cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, somente para citar as duas principais metrópoles do País, oferecem continuamente exemplos disso. Essa visão leva-nos a exigir somente medidas mais eficazes do governo em favor do pedestre.
Nas últimas décadas, o elevado número de mortos em acidentes de trânsito, que causaram não só mortes, mas sérios ferimentos, muitos deles aleijando suas vítimas, desencadeou uma reação da sociedade em favor de regras de trânsito mais rígidas e fiscalização mais eficaz. Apesar do novo Código de Trânsito Brasileiro ter respondido ao anseio da população, sua implantação tem sido difícil e lenta. No caso do pedestre, seus direitos são bem explícitos e as punições aos motoristas que não os respeitarem, bem mais rigorosas que as do antigo código. Basta uma rápida leitura do Art. 1º. e seus parágrafos para se entender, claramente, que o pedestre tem direito a transitar com segurança em todo espaço público, ou seja, não só para cruzar ou andar ao longo das vias urbanas e interurbanas, como também transitar nas próprias calçadas.
Ao atribuir responsabilidade objetiva aos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito, definindo, inclusive, que, no âmbito de suas competências, respondem por erros e omissões que possam prejudicar o trânsito seguro, o novo Código transferiu o ônus da prova do usuário da via pública para seu operador. Portanto, qualquer cidadão, utilizando-se da prerrogativa que lhe é dada o Art. 72, pode escrever ao órgão ou entidade responsável pela operação do serviço que, segundo sua avaliação, oferece-lhe risco a um trânsito seguro, reclamando e propondo soluções se assim o desejar. Compete ao órgão responsável provar que sua reclamação é improcedente, ou adotar medidas que eliminem os riscos apontados. Isso, em prazos mínimos.
O acima exposto revogou a lei do mais forte, que não mais deveria prevalecer no trânsito. Isso seria verdade se usuários e operadores das vias públicas respeitassem as regras estabelecidas no novo Código de Trânsito Brasileiro.
Acontece que isso não aconteceu porque toda a estrutura social e o comportamento dos diferentes estratos da sociedade obedecem a tradições históricas que se arraigam no indivíduo com tanta ou mais força que os códigos biológicos de DNA. E essa tradição alimenta e realimenta a lei do mais forte.
Somente uma ampla e eficaz educação poderá nos liberar do automatismo dos códigos culturais nefastos, mostrando que as regras de trânsito são para o bem de todos e que não se trata de um jogo de soma zero. Ao contrário, estará presente um sinergismo que nos libertará de muito sofrimento e constrangimento. Não poderá ser um sistema de educação panfletário para ser lido e jogado fora. Tampouco, somente intelectual, isto é, que não envolva nossos desejos e sentimentos egoístas, bem como de afeto e solidariedade. Muito menos de treinamento de nossas crianças como se elas pudessem se desvencilhar de nossas tradições enquanto os mais velhos continuam a se comportar e a valorizar as atitudes que garantem a sobrevivência da lei do mais forte.
Ainda hoje, é na família que se desenvolvem os valores e os comportamentos da criança. Aos 6-7 anos a criança já se estruturou como pessoa. E sempre que houver conflitos entre o que vier aprender e o que valoriza sua família, haverá uma forte tendência de optar pelos hábitos familiares ou, quem sabe, viver em conflito consigo mesmo, ora optando por uma forma de comportamento, ora por outra. Portanto, também os adultos terão de participar do processo de mudança comportamental para gerar um ambiente favorável às novas gerações que terão de subjugar a lei do mais forte.
A resposta à pergunta inicial depende menos de novas leis e regulamentos e mais da implantação dos existentes. E aí, somente a educação poderá ajudar. Não só educando os motoristas e os usuários mais frágeis, como pedestres, cidadãos com necessidades especiais e idosos, mas também os próprios operadores do Sistema Nacional de Trânsito que inclui policiamento, fiscalização, justiça, entre outros. Sem falar nos que planejam, projetam e constroem nossas vias públicas. Nesse processo de educação teremos de tomar consciência de nossos múltiplos papéis no trânsito. Todos somos pedestres; porém podemos estar motoristas, passageiros, proprietário de imóvel responsável pela calçada; empresário ou empregado de empresa de transporte; e tantas outras posições relacionadas com o trânsito.
Se no final do processo de educação, estivermos convencidos que a lei do mais forte não existe mais e que as regras de trânsito nos tornaram mais livres, solidários e saudáveis, então, terá chegado o tempo para responder que o pedestre, em nosso país, tem direitos iguais aos demais usuários da via pública.

E. J. Daros, presidente da ABRASPE