sexta-feira, 7 de março de 2008

A guerra dos vencidos


Por 90 meses, na mais longa guerra disputada pelos EUA em sua história, 58 mil soldados perderam suas vidas. Ainda hoje, mais de trinta anos depois de encerrados os combates, o país ainda sente os efeitos do conflito que mudou a sociedade americana. Nosso país perde, numa eficiência aterradora, uma guerra do Vietnã a cada doze meses, matando indistintamente seus cidadãos enquanto dirigem-se para o trabalho, férias, escolas ou num passeio de final de semana. O trânsito brasileiro, que somente em acidentes, custa 26 bilhões de Reais anuais é o mais perfeito exemplo dos efeitos da irresponsabilidade e descaso da sociedade brasileira e a incompetência de suas autoridades ao tratar de forma pessoal um problema técnico. O problema, iniciado ao entregar-se a gestão do trânsito das cidades às autoridades policiais, é agravado pela incapacidade de nossos legisladores e gestores públicos de distinguirem sua responsabilidade perante o cidadão e seu comportamento como motoristas. Produzindo uma legislação de padrão europeu, porém criando sistemas e barreira para sua aplicação digna de caricaturas hollywoodianas de autoridades africanas.
A crença brasileira na existência de uma indústria de multas, voltada unicamente para esfolar o cidadão e engordar os cofres públicos é também uma das principais barreiras culturais. Tão forte que políticos e autoridades parecem disputar uma competição de remendos legislativos e administrativos para suavizar o rigor da lei e impedir a aplicação das penalidades, num exemplo escancarado de desrespeito à lógica, ao bom senso e à inteligência. O cidadão, assumindo a infantil posição de negar o óbvio, acreditando em sua excelência auto-creditada atrás de um volante, comporta-se como se as leis fossem criadas apenas para atrapalhá-lo em seus afazeres diários, que as multas são impostos disfarçados e que seu dever é evitá-las a qualquer custo sem cumprir a lei. Soma-se a isto uma estrutura corrupta e ineficiente, derivada da entrega às autoridades policiais o que deveria ser da alçada administrativa (concessão de licenças de condução de veículos e registros de propriedade) e técnica (engenharia de tráfego e fiscalização veicular), e chegamos ao massacre diário que se tornou o exercício do direito de ir e vir do cidadão. É hora de tratarmos o trânsito de forma séria e técnica, analisarem as séries históricas de acidentes e identificar as estradas, os veículos, os motoristas, as viagens, as condições meteorológicas, enfim todas as variáveis envolvidas desde um simples deslocamento para a padaria até uma viagem interestadual que terminaram de forma trágica. Encontrar os pontos comuns e, de forma séria, desenvolver, comunicar, incentivar, fiscalizar legislação adequada e rigorosa, punindo exemplarmente os motoristas infratores.
É também preciso tratar as causas físicas dos acidentes: sinalização inadequada, má conservação das pistas, manutenção deficiente dos automóveis. O estado de Minas Gerais, campeão em número de acidentes, é símbolo do nefasto efeito de estradas mal construídas, mal sinalizadas e mal conservadas. Viajar por Minas Gerais, coberto pela maior malha de rodovias federais, é muito mais arriscado do que nas movimentadíssimas estradas paulistas, privatizadas e mantidas sob um padrão internacional. Enfim é hora de iniciarmos a verdadeira engenharia de transportes no Brasil. Substituir os delegados por engenheiros seria um bom começo.
Edemar de Souza Amorim
Presidente do Instituto de Engenharia

segunda-feira, 3 de março de 2008

Eu respeito o pedestre!

Chegou a hora de entendermos que civilização não significa ter milhões de veículos e centenas de quilômetros de congestionamento. O progresso de uma cultura se revela pelo bem estar de sua população.

Autor: Luis Molist Vilanova

“- Acabei de chegar da Inglaterra. É incrível. É só pôr o pé na faixa e os carros param prá você atravessar”.

Por que o deslumbramento? De acordo com nosso código de trânsito, “Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.”

O fato é que essa é uma daquelas leis que não pegaram por aqui. Para atravessar uma rua, você é obrigado a ficar calculando se dá tempo de atravessar entre as brechas dos veículos que avançam implacavelmente. Mas o pior não é ter que fazer isso. O pior é aceitar isso como natural. É o preço do progresso. É o tributo ao Moloch do trânsito.

Chegou a hora de entendermos que civilização não significa ter milhões de veículos e centenas de quilômetros de congestionamento. O progresso de uma cultura se revela pelo bem estar de sua população, pela tranqüilidade com que pode andar pela cidade, pelo número dos que não morrem no trânsito. Suécia está trabalhando no programa Zero Mortes no Trânsito. O princípio é que não é aceitável que uma pessoa sequer venha a morrer em acidentes; não faz sentido; não é justo; não precisa ser assim.

É sintomático que utilizemos a expressão trânsito bom como sinônimo de trânsito veloz. Não importa se a pista está escorregadia, se não há iluminação e se acabou de ocorrer um acidente fatal. O noticiário da noite vai informar “Acidente com vítima fatal na Avenida Brasil. Um pouco de lentidão no local devido à curiosidade. Mesmo assim o trânsito continua bom.” Que bom que o trânsito está bom. Pena que as pessoas talvez não estejam tão boas assim.

Generalizou-se a idéia de que a redução drástica dos acidentes é uma fantasia bucólica, defendida por alguns ingênuos na Semana do Trânsito. Entretanto, a verdade é que, tecnicamente, não há contradição entre fluidez e segurança viária nos projetos bem feitos.

Vamos analisar o que acontece com os pedestres nos cruzamentos equipados com semáforos para veículos.

Pelo código de trânsito, o pedestre pode atravessar quando é liberado o movimento paralelo à sua travessia, pois os veículos desse movimento que forem fazer a conversão devem parar e esperar o pedestre atravessar toda a via. Será que a fila formada vai provocar congestionamento se começarmos a respeitar a lei?

Podemos afirmar que em quase 100% dos locais não haverá nem sombra de congestionamento. Nos locais restantes, em que houver elevado número de pedestres e alto grau de saturação veicular, indica-se a programação de um estágio específico para os pedestres: todos os movimentos dos veículos são retidos enquanto se realiza a travessia exclusiva dos pedestres.

Pode ser que, em raríssimos casos, o semáforo não tenha reserva de capacidade suficiente e a introdução do estágio de pedestres venha a provocar congestionamento. Sentimos muito, mas se não há projeto alternativo viável, não há como deixar de prejudicar os veículos. É simplesmente imoral questionar de quem deve ser a prioridade.

É curioso notar que a sanha pela fluidez acaba prejudicando os próprios motoristas. Como os veículos que fazem conversão não dão nunca passagem para os pedestres, está se disseminando, erroneamente, a programação do estágio exclusivo para pedestres mesmo em locais onde tal medida é totalmente desnecessária.

O que poderia ser resolvido através de uma regra simples transforma-se numa imposição drástica. A conseqüência é que muitos veículos ficam esperando no vermelho, sem necessidade, quando não há nenhum pedestre que conflite com o movimento que desejam realizar.

Em relação aos cruzamentos sem semáforos, não há muito que comentar. Se não há necessidade de semáforo é porque o grau de saturação do local é pequeno e não serão alguns segundos a mais de espera, enquanto o pedestre atravessa, que irão comprometer o nível de fluidez do local.

A engenharia de trânsito dispõe de vários recursos para diminuir os riscos dos atropelamentos. Diminuição do vão de travessia com o alargamento das calçadas, construção de ilhotas intermediárias de refúgio, construção de canteiro central, proibição de conversões, remanejamento de pontos de ônibus e por aí afora.

Basta que a sociedade pressione os órgãos responsáveis para que passem a dar mais atenção à segurança viária. Entretanto, enquanto ela continuar julgando que os recursos públicos têm de ser gastos preferencialmente para incrementar a fluidez, não há muita esperança em ver diminuir a quantidade de pessoas que morrem nas nossas ruas.

A primeira medida que temos de tomar é exigir que os veículos que forem fazer conversão nos cruzamentos parem para o pedestre atravessar, com semáforo ou sem semáforo, com faixa ou sem faixa.

Aos céticos lembramos que não é só no Primeiro Mundo que essa regra pode funcionar. Brasília, corajosamente, tomou essa decisão há poucos anos e obteve completo sucesso.

Precisamos desfazer o mito de que o brasileiro é mais malandro e desobediente do que outros povos. Guardadas algumas diferenças culturais, não existem diferenças substanciais de comportamento. O que existe, sim, são punições severas nos países ditos adiantados, punições que garantem reduzidas taxas de vítimas do trânsito.

Um bom exemplo foi a obrigatoriedade do cinto de segurança. Dizia-se que o brasileiro nunca iria se render à sua utilização.

Bastou uma fiscalização eficiente nos primeiros meses e o dispositivo foi tão bem assimilado que figuramos entre os países com maior índice de uso do cinto.

Exigir que os veículos aguardem os pedestres atravessar para realizar seus movimentos de conversão demanda uma cuidadosa etapa de educação da população em geral e dos motoristas em particular.

É indispensável, principalmente, rigorosa fiscalização, imune à demagogia de que se educarmos direito não precisaremos multar. É claro que o primeiro passo é informar & educar & conscientizar. Entretanto, não serão palavras comoventes ao pé do ouvido que mudarão a conduta daquele sujeito que joga o carro sobre o pedestre.

Não é uma operação simples, como nossos colegas brasilienses bem devem saber. Aliás, aproveitamos este artigo para pedir-lhes que publiquem e propagandeiem seu trabalho a fim de que outras cidades possam se beneficiar de sua experiência.

Trata-se das vidas das pessoas de que gostamos. Vamos conseguir. Quando estivermos em Londres, daqui a poucos anos, ainda vamos ouvir:

“I´ve just arrived from Brazil. It’s amazing. You step on to the crosswalk and you see all vehicles stopping immediately”.

domingo, 2 de março de 2008

Blog participa de Consulta Pública

Ao tomar conhecimento da Consulta Pública do Ministério da Justiça, que altera dispositivos da Lei nº 9.503, de 23 de Setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, o Blog da Cidade apresentou àquele órgão e à Frente Parlamentar em Defesa do Trânsito da Câmara dos Deputados, a seguinte proposta:

"Cansados de esperar uma decisão das autoridades municipais de Fortaleza e de outras cidades brasileiras, no tocante ao desrespeito ao pedestre e a consequente violência em nosso trânsito, nos vimos obrigados a criar um blog (http://blogdacidadefortaleza.blogspot.com), para denunciar a omissão e as mazelas que nos ameaçam diariamente, principalmente na questão das faixas de pedestres.

Assim, procupados com o crescente de número de vítimas por atropelamento, seja na própria faixa ou não, em nossas cidades, é que solicitamos a inclusão de alteração na MP 415/08 de uma medida punitiva mais dura que contemple a questão do desrespeito aos pedestres,a obrigatoriedade de obediência a faixa de pedestres e ainda a ocorrência de acidente fatal na travessia,quando a mesma esteja sendo utilizada.

Atenciosamente

Equipe Blog da Cidade"