Ao comparar os 30 dias anteriores à lei seca com os 30 posteriores, Detran-DF verificou queda de 6% no total de óbitos e de 20,5% no de acidentes fatais. Índices não satisfazem diretores do órgão.
Por Gizella Rodrigues
Controlar apenas a ingestão de bebidas alcoólicas por motoristas não é o suficiente para reduzir a quantidade de tragédias que ocorrem diariamente nas vias do Distrito Federal. É preciso combater também o excesso de velocidade, o desrespeito às leis de trânsito e o não uso do cinto de segurança. Essa é a conclusão do Departamento de Trânsito do DF (Detran), que decidiu intensificar ainda mais a fiscalização depois de analisar o balanço de um mês de vigência da lei seca.
Após comemorar uma redução de 50% nos acidentes com mortes nos 10 primeiros dias seguintes à sanção da lei de tolerância zero à mistura de álcool e direção, o órgão anunciou ontem uma queda de 20,5% nas ocorrências fatais no trânsito brasiliense. O número de pessoas mortas caiu menos ainda: apenas 6% nos 31 dias depois da lei, em comparação com o mês anterior à vigência da nova legislação.
Os dados ainda são preliminares porque o Detran considera vítimas as pessoas que morrem até 30 dias depois da ocorrência. De 20 de maio a 19 de junho, ocorreram 34 acidentes com mortes no DF (veja arte). O número caiu para 27, entre 20 de junho e o último domingo. A maior redução ocorreu nas rodovias locais, as DFs: foram 15 acidentes fatais antes da lei e oito depois (46% a menos). Não houve mudança nas vias urbanas (13 ocorrências fatais) nem nas rodovias federais que cortam o DF (seis acidentes). A queda é praticamente a mesma se os dados forem comparados aos de 2007. Em junho deste ano, ocorreram 32 acidentes com mortes, 21% a menos do que no mesmo período de 2007 (41 acidentes fatais).
A redução de mortos não acompanhou o ritmo dos acidentes. Nos 31 dias anteriores à sanção da lei seca, 35 pessoas morreram contra 33 no período posterior. Também não ocorreram alterações nas vias urbanas (13 mortos). Nas DFs, o número caiu 37% (de 16 vítimas para 10). Em compensação, mais pessoas morreram nas BRs, fiscalizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), que ficou 48 dias em greve. De 20 de maio a 19 de junho, foram seis vítimas. Número que subiu para 10, entre 20 de junho e 20 de julho.
Mais educação
O diretor-geral do Detran, Jair Tedeschi, confessou que esperava um balanço melhor. Ele acreditava que a média de 39%, obtida depois de 24 dias de lei seca, seria mantida. “A verdade é que talvez diminuímos os acidentes com bebidas, mas precisamos fazer uma fiscalização mais intensa para bater também nos outros fatores que causam acidente, como a imprudência e o não uso do cinto de segurança”, reconheceu. Na próxima semana, o Detran lançará uma nova campanha, voltada para reduzir os acidentes com motociclistas. “Motorista e motociclista têm que conviver no mesmo espaço”, afirmou.
Apesar de considerar os dados de um mês da lei seca “ruins”, Tedeschi espera que, em julho, o número de tragédias diminua. “Paulatinamente, estamos reduzindo as estatísticas. Foram 56 mortes em abril, 38 em maio, 35 em junho e queremos menos de 30 em julho”, afirmou. Segundo ele, nos primeiros 21 dias de julho, ocorreram apenas dois acidentes fatais entre as 23h e as 6h, horário em que as batidas graves são comuns. Foram uma capotagem às 3h perto do Recanto das Emas e um atropelamento de pedestres às 23h30 na Avenida Hélio Prates, em Taguatinga. Apenas na capotagem há suspeitas de embriaguez.
Nas rodovias
Tedeschi preferiu não afirmar que a paralisação da PRF local contribuiu para uma pouca redução de mortes. Mas disse que espera mais operações do órgão. “Eu acredito que a ação que eles vão desenvolver a partir de agora faça com que esse número caia mais, principalmente na BR-020”, ressaltou. Os policiais rodoviários federais colocaram fim à greve na última quinta-feira e garantiram que a prioridade seria fiscalizar o consumo de bebidas por motoristas de caminhões e ônibus. Sexta-feira, eles fizeram uma operação na BR-040, em Valparaíso (GO), mas não flagraram ninguém dirigindo alcoolizado porque a blitz ocorreu no meio da tarde.
No último fim de semana, a PRF não fez operação alguma. O chefe da Comunicação Social da PRF, D. Lucas Barbosa, disse que os policiais estão envolvidos com as comemorações do aniversário de 80 anos da corporação, na semana que vem, e não quis comentar o aumento do número de mortos nas rodovias federais que cortam o DF.
“Não reconhecemos esses dados porque o Detran não tem autonomia para divulgá-los. A área de autuação do Detran são as vias locais e não as rodovias”, disparou. Segundo D. Lucas, a PRF fará operações com bafômetros, mas ele não disse quando nem onde. Durante o fim de semana, no Rio de Janeiro, 42 motoristas foram autuados por embriaguez pela PRF: 22 deles acabaram detidos com teor alcoólico superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar expelido no bafômetro.
Compra de bafômetros
Mais 20 bafômetros serão usados na fiscalização para flagrar motoristas brasilienses que insistem em dirigir depois de beber. O Departamento de Trânsito do DF (Detran) abriu processo para a compra de mais oito aparelhos que serão somados aos oito já usados nas operações do órgão. A Companhia de Polícia Militar Rodoviária (CPRv) também fez pedido para o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) comprar mais 12 bafômetros que ajudem os policiais a atenderem mais rapidamente as ocorrências, já que eles dão apoio a outras unidades. A expectativa do Detran é que os novos aparelhos entrem em operação em meados de agosto. Os da CPRv não têm data para chegar. Hoje, Detran e Polícia Militar têm 28 bafômetros.
Com os novos equipamentos, a quantidade de motoristas multados e presos no DF por descumprimento da lei seca deve aumentar ainda mais. Em 30 dias de vigência da legislação, cerca de 174 motoristas foram autuados pela PM e pelo Detran. Só no último fim de semana, 24 condutores dirigiram depois de beber e acabaram flagrados. De 1º de janeiro ao último domingo, o Detran já multou 971 pessoas e se aproxima do número de todo o ano passado, quando os agentes emitiram 1.008 multas para motoristas que guiavam sob influência do álcool ou suspeita de uso de entorpecentes.
Quem é flagrado pelo bafômetro com 0,1 miligrama de álcool por litro de ar expelido leva multa de R$ 957 e está sujeito à perda da habilitação por 12 meses. Se o índice ultrapassar 0,3 miligrama, além das punições administrativas, o condutor é levado para a delegacia. O processo para suspender a carteira dura cerca de seis meses.
Para receber autorização para dirigir novamente, o motorista precisa fazer as aulas da escola de trânsito, além de freqüentar uma palestra do Alcoólicos Anônimos. Se for reincidente, ele tem a carteira cassada, precisa esperar dois anos para dirigir de novo e iniciar um novo processo na auto-escola. De acordo com o Detran, a maioria dos flagrantes é feita entre o fim da tarde e a madrugada e os infratores são, na maior parte das vezes, homens jovens.
Hábitos novos
Segundo o comandante do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), coronel José Ricardo Cintra, menos de 10% dos motoristas submetidos ao bafômetro nas blitzes da PM estavam com teor alcoólico acima do permitido. “Antes, as pessoas não se preocupavam em dirigir depois de beber. Agora, a gente nota uma mudança de comportamento. É comum parar carros em que todo mundo bebeu, menos o condutor”, contou. A CPRv fiscaliza as DFs com 80 policiais por turno e, desde o início da vigência da lei, flagrou 48 motoristas dirigindo depois de beber. “Ao ver que o estado está fiscalizando, o brasiliense criou o hábito salutar de encontrar outras maneiras de voltar para casa”, ressaltou o comandante em exercício da companhia, capitão Sinaldo Moura Pimenta. (GR)