¨Debalde se procurar árvores em Fortaleza. Elas nos foram sendo roubadas debaixo de nosso nariz¨
Por Airton Monte
¨Não é todo fim de semana que posso me dar ao agradável luxo de botar os pés fora de meu tugúrio suburbano para dar um trivial passeio pela minha cidade. Além de ter que trabalhar, escrevendo, adiantando o mais que posso as minhas cotidianas mal traçadas, alguém há que ficar tomando de conta da casa, bancando o sentinela do doméstico quartel, pois os ladrões estão à solta e não se pode dar carne a gato de mão beijada. Apesar dos inúmeros cadeados, trancas postas nas portas, grades nas janelas e dos cachorros, sinto-me ansioso, inseguro em deixar a casa entregue à proteção dos santos, abandonada à própria sorte, pois ninguém está livre de encontrar o seu refúgio caseiro saqueado ao retornar de algumas horas de divertimento, aliás, bastante merecido. E se algum membro da família precisa restar em casa, prefiro que seja eu por mil e um motivos que não vale a pena enumerar.
Os amigos dizem que, depois de velho, pouco a pouco estou me transformando num ermitão urbano, me isolando cada vez mais do convívio social. Entanto, morar em casa tem lá as suas vantagens e desvantagens das quais não se pode fugir nem que se queira. Se por um lado, usufrui-se de um tantinho a mais de liberdade do que aqueles que habitam apartamentos, por outro estamos sujeitos à insegurança, principalmente nessa época que antecede às festividades natalinas, em que todo mundo anda louco para arrumar dinheiro, mormente os insaciáveis amigos do alheio, que estão sobremodo atentos para aproveitar qualquer descuido. Não estou me tornando paranóico, desconfiado de tudo e de todos, porém só alivio minha ansiedade de ser roubado e de ter a casa invadida por solertes gatunos, se tomar minhas devidas precauções, tentando evitar o terrível desgosto de ter minha residência “engomada” pelos ladravazes.
Contudo, vez em quando, consigo a liberdade condicional de uma folguinha no labor de vigilante e me liberto por algumas horas, por poucas e raras que sejam, para encetar um precioso bordejo por aí, levando um imaginário violão debaixo do braço. Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro, sequioso por desanuviar a cabeça. E, ao andar sem rumo pela cidade, meus olhos aflitos perguntam por onde andarão as árvores de Fortaleza. O sol me faz transbordar de suor e mau humor durante essas peregrinações citadinas. Nesse momento, é que sinto uma extrema necessidade de árvores e de sombra. Debalde se procurar árvores em Fortaleza. Elas nos foram sendo, paulatinamente, roubadas debaixo de nosso nariz e com a nossa cumplicidade. Para achar umazinha que seja, é preciso caminhar procurando árvores, desejoso de verde e de lirismo. Cadê as mangueiras, goiabeiras, os benjamins que nos tiraram? À minha volta, para onde quer que olhe, natureza vejo emparedada em cimento e cal.
Aqui e ali, desponta uma arvorezinha raquítica, malamanhada que nem sombra dá. Cadê os quintais de pomares abundantes de minha infância? Os meninos de hoje jamais provarão do sabor inesquecível das frutas tiradas no pé, ainda banhadas de orvalho. Quão pouca liberdade sofrem os meninos de hoje. Foram expulsos das ruas, tocados para o dourado exílio dos condomínios e entre eles e o mundo se erguem muros e gradis. Tenho pena dos meninos de hoje que não sabem o que perderam por nossa culpa, pois permitimos que o deserto acontecesse. Uma cidade sem árvores é feito alguém que perdeu a alma, que desistiu do verde e deixa-se morrer cremado pelo sol, uma morte agoniada e agoniante. Uma cidade sem árvores é uma cidade asmática se intoxicando de gás carbônico e da ardência do ar quente. Por onde andarão as árvores de Fortaleza? Procura-se desesperadamente. Em que mundo, em que estrela se escondem? Na verdade, quase mais ninguém se importa com as árvores. Quase mais ninguém sente no coração a falta da Beleza feito eu¨.


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